Ler a ressonância pensando em endoscopia significa responder a cinco perguntas: em que nível e zona está a hérnia, se o fragmento migrou e para onde, se há estenose ou calcificação associadas, se a anatomia do nível favorece o acesso transforaminal ou interlaminar, e se existem fatores associados a recidiva. As respostas definem a indicação e o acesso.

1. Nível e zona da hérnia

Classifique a hérnia no plano axial: central, subarticular (paracentral), foraminal ou extraforaminal. Hérnias foraminais e extraforaminais são o terreno natural do acesso transforaminal. Hérnias centrais e paracentrais em L5-S1 costumam ser bem abordadas pela via interlaminar.

2. Migração do fragmento

Avalie no sagital a direção e a distância da migração em relação ao disco. A classificação de Lee e colaboradores, de 2007, divide a migração em quatro zonas: far up (zona 1), near up (zona 2), near down (zona 3) e far down (zona 4). No estudo original, com 116 pacientes, os autores usaram abordagens diferentes conforme a zona e concluíram que a cirurgia aberta deve ser considerada nas migrações distantes.

ZonaDescriçãoImplicação para endoscopia
1. Far upMigração cranial distante do discoAlta dificuldade; considerar cirurgia aberta, sobretudo no início da curva.
2. Near upMigração cranial próxima ao discoViável com ajuste de trajetória ou foraminoplastia.
3. Near downMigração caudal próxima ao discoViável com ajuste de trajetória; avaliar interlaminar em L5-S1.
4. Far downMigração caudal distante do discoAlta dificuldade; considerar cirurgia aberta.
Classificação de Lee et al., Eur Spine J 2007.

3. Sequestro e calcificação

Fragmentos sequestrados podem se deslocar e exigem exploração mais ampla. Quando há suspeita de calcificação, como hipossinal marcado em todas as sequências ou hérnias de longa evolução, a tomografia esclarece. Hérnia calcificada exige ressecção com broca e não é bom caso para o início da curva.

4. Estenose e alterações associadas

Avalie o canal central, o recesso lateral e o forame. Hipertrofia facetária e do ligamento amarelo transformam uma discectomia em descompressão, o que muda a técnica e o risco. Nesses casos, a técnica biportal ganha espaço: veja biportal na estenose lombar.

5. Anatomia do nível e do acesso

A ressonância não basta: complete com radiografia para ver a altura da crista ilíaca em L5-S1 e, quando houver dúvida sobre estabilidade, radiografias dinâmicas. Avalie a altura foraminal e o espaço disponível para a cânula no acesso transforaminal, e o tamanho da janela interlaminar para o acesso posterior. Em L5-S1, crista ilíaca alta e forame estreito podem dificultar o acesso transforaminal, como discutido em interlaminar ou transforaminal.

6. Fatores associados à recidiva

Em série de 654 discectomias transforaminais em L4-L5, com recidiva de 7%, os autores recomendam considerar antes da cirurgia a degeneração discal, a localização medial ou distal da hérnia e a infiltração gordurosa da musculatura paravertebral, entre outros fatores. Todos aparecem na ressonância e devem constar no planejamento.

Checklist de leitura para endoscopia

AchadoOnde verPor que importa
Zona da hérniaAxialDefine o acesso.
Direção e distância da migraçãoSagitalDefine viabilidade e trajetória.
SequestroSagital e axialExige exploração mais ampla.
CalcificaçãoTomografiaMuda técnica e indicação.
Estenose central, recesso e forameAxial e sagitalTransforma discectomia em descompressão.
Altura da crista ilíacaRadiografiaViabilidade transforaminal em L5-S1.
Janela interlaminarAxial, sagital e radiografiaViabilidade interlaminar.
Degeneração discal e infiltração gordurosaSagital e axialFatores associados à recidiva.
InstabilidadeRadiografias dinâmicasPode exigir artrodese.

Da imagem à decisão

Com o checklist preenchido, classifique o caso conforme a sua fase da curva, usando o guia de seleção de casos. Reconhecer na imagem as estruturas que você vai encontrar pela ótica do endoscópio é uma habilidade que se treina em peça anatômica, como no EndoColuna Cadaverlab.

Conclusão

A ressonância lida para endoscopia vai além do diagnóstico: antecipa o acesso, a trajetória, a dificuldade e o risco de recidiva. Fazer sempre as mesmas perguntas, na mesma ordem, reduz surpresas na sala cirúrgica.

Perguntas frequentes

O que avaliar na ressonância antes de uma endoscopia de coluna?

Zona e nível da hérnia, direção e distância da migração, sequestro, calcificação, estenose associada, anatomia do acesso e fatores associados à recidiva.

O que é a classificação de Lee para migração discal?

Divide a migração em quatro zonas conforme direção e distância do disco: far up, near up, near down e far down. Os autores recomendam considerar cirurgia aberta nas migrações distantes.

A ressonância basta para planejar o acesso?

Não. A radiografia mostra a altura da crista ilíaca em L5-S1, e a tomografia esclarece calcificações. Radiografias dinâmicas avaliam instabilidade.

Quais achados se associam à recidiva?

Em série de 654 casos, degeneração discal, localização medial ou distal da hérnia e infiltração gordurosa da musculatura paravertebral estiveram entre os fatores a considerar.

Referências

  1. Lee S, Kim SK, Lee SH, et al. Percutaneous endoscopic lumbar discectomy for migrated disc herniation: classification of disc migration and surgical approaches. European Spine Journal, 2007;16(3):431-437 doi.org/10.1007/s00586-006-0219-4
  2. Kong M, Xu D, Gao C, et al. Risk Factors for Recurrent L4-5 Disc Herniation After Percutaneous Endoscopic Transforaminal Discectomy: A Retrospective Analysis of 654 Cases. Risk Management and Healthcare Policy, 2020;13:3051-3065 doi.org/10.2147/RMHP.S287976
  3. Li T, Yang G, Zhong W, et al. Percutaneous endoscopic transforaminal vs. interlaminar discectomy for L5-S1 lumbar disc herniation: a retrospective propensity score matching study. Journal of Orthopaedic Surgery and Research, 2024;19:64 doi.org/10.1186/s13018-024-04543-z

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