A escolha entre acesso interlaminar e transforaminal depende sobretudo do nível, da localização da hérnia e da anatomia. O transforaminal é a via natural para hérnias foraminais e extraforaminais. O interlaminar costuma ser preferido em L5-S1, onde a janela entre as lâminas é ampla e a crista ilíaca alta dificulta o forame.

Abaixo, os critérios de decisão, o que mostram os estudos comparativos e um roteiro prático para escolher o acesso.

Como funciona cada acesso

Transforaminal: o endoscópio entra pela região póstero-lateral, atravessa o forame intervertebral (por onde sai a raiz) e chega ao disco e ao canal sem ressecção da lâmina. Pode exigir foraminoplastia quando o forame é estreito.

Interlaminar: o acesso é posterior, pela janela entre as lâminas, com abertura do ligamento amarelo para chegar ao canal e à raiz. Lembra o trajeto da microdiscectomia, por isso costuma ser familiar a quem já opera coluna.

Critérios para escolher o acesso

1. Nível operado

Em L5-S1, a crista ilíaca alta e o forame mais estreito podem bloquear a cânula no acesso transforaminal. A janela interlaminar nesse nível costuma ser ampla. Nos níveis lombares superiores ocorre o contrário: a janela interlaminar é estreita e o acesso transforaminal tende a ser mais direto.

2. Localização da hérnia

Hérnias foraminais e extraforaminais são alcançadas diretamente pelo forame. Hérnias centrais e paracentrais em L5-S1 são bem abordadas pela via interlaminar. Fragmentos migrados exigem análise da direção e da distância da migração: dependendo do caso, pedem foraminoplastia ou favorecem o interlaminar.

3. Cirurgia prévia

Em reoperações, o acesso transforaminal permite chegar ao disco sem atravessar a fibrose posterior da cirurgia anterior. Essa é uma vantagem relevante em recidivas após microdiscectomia.

4. Anestesia e posicionamento

O acesso transforaminal é frequentemente realizado com anestesia local e sedação, o que permite ao paciente relatar contato com a raiz. O interlaminar costuma ser feito sob anestesia geral. A rotina varia conforme o serviço e o cirurgião.

5. Experiência do cirurgião

A curva de aprendizado em tempo cirúrgico é parecida nos dois acessos, segundo metanálise com 13 estudos. Ainda assim, a orientação anatômica no interlaminar tende a ser mais intuitiva para quem vem da microcirurgia. Entenda os números no artigo sobre curva de aprendizado na técnica uniportal.

O que mostram os estudos comparativos

Em estudo retrospectivo com pareamento por escore de propensão, 78 pacientes com hérnia L5-S1 foram comparados. O grupo interlaminar teve tempo cirúrgico menor (cerca de 65 contra 84 minutos) e muito menos disparos de fluoroscopia (cerca de 3 contra 12). Taxas de resultado excelente ou bom (perto de 90% nos dois grupos), sangramento, internação e complicações não diferiram.

Em ensaio clínico randomizado, as técnicas endoscópicas interlaminar e transforaminal tiveram resultados clínicos comparáveis aos da microcirurgia em hérnias de disco lombares selecionadas, com as vantagens de um acesso menos traumático.

CritérioTransforaminalInterlaminar
ViaPóstero-lateral, pelo foramePosterior, pela janela interlaminar
Hérnias mais indicadasForaminais, extraforaminais, parte das paracentraisCentrais e paracentrais, sobretudo em L5-S1
Nível favorávelLombares superiores e médiosL5-S1
Cirurgia préviaEvita a fibrose posteriorAtravessa a área operada
Anestesia frequenteLocal com sedaçãoGeral
Fluoroscopia em L5-S1 (estudo pareado)~12 disparos~3 disparos
Indicações frequentes na literatura. A decisão final depende da imagem e da anatomia de cada paciente.

Roteiro prático de decisão

  1. Defina o nível e a zona da hérnia na ressonância (central, paracentral, foraminal, extraforaminal).
  2. Verifique na radiografia a altura da crista ilíaca em relação a L5-S1.
  3. Meça o tamanho da janela interlaminar e o espaço foraminal na tomografia ou ressonância.
  4. Avalie migração do fragmento: direção (cranial ou caudal) e distância.
  5. Considere cirurgia prévia e a preferência anestésica do serviço.
  6. Escolha o acesso com o caminho mais curto e seguro até o fragmento, dentro da sua experiência atual.

Uma regra útil no início da curva: escolha o acesso em que a anatomia trabalha a seu favor, e deixe os casos de fronteira para quando os dois acessos já estiverem dominados.

Conclusão

Transforaminal e interlaminar não competem: resolvem problemas diferentes. Dominar os dois amplia as indicações e permite escolher pela anatomia, não pela limitação técnica. Os dois acessos podem ser praticados lado a lado no EndoColuna Cadaverlab. Para comparar com a técnica de dois portais, leia quando indicar biportal ao invés de uniportal.

Perguntas frequentes

Por que o acesso interlaminar é preferido em L5-S1?

Porque a crista ilíaca alta e o forame mais estreito podem bloquear a cânula no acesso transforaminal, enquanto a janela interlaminar nesse nível costuma ser ampla.

Qual acesso usar em hérnia foraminal?

O transforaminal, que chega diretamente ao forame e à região extraforaminal sem ressecção óssea posterior.

Qual acesso é melhor em reoperação?

O transforaminal permite chegar ao disco sem atravessar a fibrose posterior da cirurgia anterior, o que é uma vantagem em recidivas.

Os resultados clínicos são diferentes entre os dois acessos?

Em L5-S1, estudo pareado mostrou eficácia clínica semelhante, com menor tempo cirúrgico e menos fluoroscopia no acesso interlaminar.

Referências

  1. Li T, Yang G, Zhong W, et al. Percutaneous endoscopic transforaminal vs. interlaminar discectomy for L5-S1 lumbar disc herniation: a retrospective propensity score matching study. Journal of Orthopaedic Surgery and Research, 2024;19:64 doi.org/10.1186/s13018-024-04543-z
  2. Ruetten S, Komp M, Merk H, Godolias G. Full-endoscopic interlaminar and transforaminal lumbar discectomy versus conventional microsurgical technique: a prospective, randomized, controlled study. Spine, 2008;33(9):931-939 doi.org/10.1097/BRS.0b013e31816c8af7
  3. Koh CH, Booker J, Choi D, et al. Learning Curve of Endoscopic Lumbar Discectomy: A Systematic Review and Meta-Analysis of Individual Participant and Aggregated Data. Global Spine Journal, 2025;15(2):1435-1444 doi.org/10.1177/21925682241289901

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Dr. Thiago Soares

Sobre o autor

Dr. Thiago Soares

CRM-RS 28145 | RQE 20774 · Hospital Regina (Novo Hamburgo) e Instituto EndoRegenera

Ortopedista com atuação em cirurgia minimamente invasiva e endoscópica da coluna vertebral. Fundador e coordenador do EndoColuna.