A técnica biportal (UBE) tende a ser escolhida para descompressões, como na estenose de canal lombar, porque dois portais independentes permitem triangulação e instrumental convencional. A uniportal se destaca em hérnias de disco, sobretudo foraminais e extraforaminais pelo acesso transforaminal. Em discectomia, metanálise não mostrou diferença significativa de eficácia clínica entre as duas.

O que diferencia as duas técnicas

AspectoUniportal (full-endoscopic)Biportal (UBE)
Portais1, com ótica e instrumentos no mesmo canal2 independentes: ótica e trabalho
ÓticaEndoscópio com canal de trabalhoArtroscópio
InstrumentalEndoscópico dedicadoConvencional de coluna e artroscópico
TriangulaçãoLimitadaAmpla, como na artroscopia
AcessosTransforaminal e interlaminarInterlaminar e paraspinal
Curva de aprendizado~21 casos para 80% do ganho de tempo (transforaminal)Média de 37,5 casos (14 a 58)
Curva de aprendizado conforme metanálises de Koh et al. e Liu et al.

Quando a biportal costuma ser a melhor escolha

  • Estenose de canal lombar central e de recesso lateral: a liberdade de movimento facilita a laminotomia e a flavectomia amplas.
  • Descompressão bilateral por acesso unilateral: a técnica “over-the-top” alcança o lado contralateral pela mesma via.
  • Cirurgiões familiarizados com artroscopia: a lógica de dois portais e o instrumental são parecidos.
  • Uso de instrumental convencional: pinças, curetas e brocas maiores aceleram descompressões ósseas.

Quando a uniportal costuma ser a melhor escolha

  • Hérnias foraminais e extraforaminais: o acesso transforaminal chega direto ao fragmento.
  • Reoperações: o acesso transforaminal evita a fibrose posterior.
  • Procedimentos sob anestesia local com sedação: frequentes no acesso transforaminal.
  • Menor incisão: um único portal de poucos milímetros.

Para escolher o acesso dentro da técnica uniportal, veja interlaminar ou transforaminal.

O que dizem as metanálises

Eficácia em discectomia: uma metanálise com 6 estudos e 281 pacientes comparou UBE e PELD (endoscopia percutânea uniportal) em hérnia de disco lombar. Não houve diferença significativa em eficácia clínica. A uniportal teve menor tempo cirúrgico e menor sangramento. Todos os estudos eram não randomizados, e a heterogeneidade foi alta em alguns desfechos.

Curva de aprendizado da biportal: metanálise com cinco estudos estimou ponto de corte médio de 37,5 casos (14 a 58). Entre os grupos inicial e tardio, o tempo cirúrgico caiu de cerca de 121 para 85 minutos e as complicações de 14,3% para 4,4%.

Complicações: revisão sistemática com 117 artigos e mais de 20 mil pacientes, divididos entre técnicas uniportal e biportal, apontou lesão dural, déficit neurológico transitório e disestesia entre as principais complicações perioperatórias de discectomia e descompressão.

Na prática, a pergunta não é qual técnica é melhor, e sim qual resolve melhor aquela patologia, com o equipamento e a experiência disponíveis.

Como decidir: quatro perguntas

  1. Qual é a patologia? Hérnia mole favorece a uniportal; estenose com necessidade de descompressão óssea ampla favorece a biportal.
  2. Onde está a compressão? Foraminal e extraforaminal pedem o acesso transforaminal; central e bilateral favorecem a biportal ou o interlaminar.
  3. Qual equipamento está disponível? A biportal costuma aproveitar torre de artroscopia e instrumental já existentes; a uniportal exige sistema endoscópico dedicado.
  4. Qual técnica você já domina? No início da curva, prefira a técnica com que você tem mais horas de treino.

Vale aprender as duas?

Para quem quer cobrir a maior parte das indicações degenerativas lombares por via endoscópica, sim. As técnicas compartilham princípios, como irrigação, hemostasia e anatomia endoscópica, mas exigem treinos diferentes de coordenação e triangulação. O treinamento hands-on em cadáver permite comparar as duas na mesma peça anatômica.

Conclusão

Biportal e uniportal são complementares. A biportal se destaca em descompressões amplas e na estenose; a uniportal, em hérnias foraminais e reoperações. Escolha pela patologia e pela sua curva de aprendizado, e veja quanto treino cada uma exige no artigo sobre curva de aprendizado.

Perguntas frequentes

Qual a principal diferença entre biportal e uniportal?

Na uniportal, ótica e instrumentos passam pelo mesmo canal do endoscópio. Na biportal (UBE), há dois portais independentes, um para o artroscópio e outro para os instrumentos.

Qual técnica é melhor para estenose lombar?

A biportal costuma ser escolhida para descompressões amplas, inclusive bilaterais por acesso unilateral, pela triangulação e pelo uso de instrumental convencional.

Os resultados em hérnia de disco são diferentes?

Metanálise com 281 pacientes não mostrou diferença significativa de eficácia clínica. A uniportal teve menor tempo cirúrgico e menor sangramento, em estudos não randomizados.

Quantos casos leva a curva de aprendizado da biportal?

Uma metanálise estimou média de 37,5 casos, com variação de 14 a 58, até o ponto de corte da curva de aprendizado.

Referências

  1. Ma X, Li W, Gao S, et al. Comparison of unilateral biportal endoscopic discectomy versus percutaneous endoscopic lumbar discectomy for the treatment of lumbar disc herniation: a systematic review and meta-analysis. Medicine (Baltimore), 2022;101(39) doi.org/10.1097/MD.0000000000030612
  2. Liu S-X, Chen R-S, Chen C-M, et al. Unilateral biportal endoscopic spine surgery: a meta-analysis unveiling the learning curve and clinical benefits. Frontiers in Surgery, 2024;11:1405519 doi.org/10.3389/fsurg.2024.1405519
  3. Koh CH, Booker J, Choi D, et al. Learning Curve of Endoscopic Lumbar Discectomy: A Systematic Review and Meta-Analysis of Individual Participant and Aggregated Data. Global Spine Journal, 2025;15(2):1435-1444 doi.org/10.1177/21925682241289901
  4. Compagnone D, Mandelli F, Ponzo M, et al. Complications in endoscopic spine surgery: a systematic review. European Spine Journal, 2024;33(2):401-408 doi.org/10.1007/s00586-023-07891-2

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