Os erros mais comuns no início da prática endoscópica são escolher casos difíceis cedo demais, planejar mal a entrada com fluoroscopia, fazer docking impreciso, perder a orientação anatômica, controlar mal a irrigação e o sangramento, e encerrar a cirurgia com fragmento residual. Quase todos são evitáveis com treino prévio, padronização e supervisão.

Abaixo, os dez erros que mais aparecem nas conversas entre cirurgiões, com o motivo de cada um e como evitá-lo.

1. Indicar casos complexos cedo demais

Revisões, estenoses e fragmentos muito migrados concentram o risco. Em revisão com 10.578 pacientes, cirurgia de revisão, estenose lombar e curva de aprendizado do cirurgião foram os principais preditores de lesão dural. Comece pelo que o guia de seleção de casos classifica como verde.

2. Planejar a entrada sem fluoroscopia adequada

No acesso transforaminal, ponto de entrada e ângulo definem tudo o que vem depois. Entrada muito medial aproxima a agulha do saco dural; muito lateral pode atravessar estruturas abdominais. Marque a pele com imagens em AP e perfil verdadeiros, com os platôs vertebrais alinhados, antes de qualquer incisão.

3. Fazer docking impreciso

Uma cânula mal assentada deixa o alvo fora do campo, aumenta a fluoroscopia e leva a manobras repetidas perto da raiz. Confirme a posição da cânula nas duas incidências antes de introduzir o endoscópio, e reposicione cedo em vez de compensar com o instrumental.

4. Perder a orientação anatômica

Com visão em duas dimensões e campo estreito, é fácil perder a noção de onde está o cranial, o medial e o ventral. Identifique referências fixas antes de ressecar: faceta, borda do pedículo, ligamento amarelo, anel fibroso e, só então, raiz e saco dural. Na dúvida, pare e confirme com fluoroscopia. Veja como reduzir complicações na discectomia endoscópica.

5. Controlar mal a irrigação

A cirurgia endoscópica acontece em ambiente líquido. Fluxo baixo demais embaça o campo; pressão excessiva por tempo prolongado não é inócua. Use a menor pressão que garanta visibilidade e trabalhe com o tempo cirúrgico em mente. A revisão de complicações de 2026 destaca que o manejo de complicações em endoscopia exige adaptação a esse ambiente hidrostático.

6. Tratar o sangramento só depois que ele aparece

A mesma revisão descreve uma estratégia que começa pela prevenção: controle hemodinâmico, tamponamento hidrostático pela irrigação e uso direcionado de radiofrequência e hemostáticos tópicos. Coagular vasos epidurais antes de cortar mantém o campo limpo e evita a desorientação que o sangramento causa.

7. Encerrar com fragmento residual

Fragmentos residuais são causa conhecida de falha precoce. Antes de terminar, confirme a raiz livre e pulsátil, explore axila e ombro da raiz e verifique a direção da migração prevista na ressonância. Em série de 654 casos transforaminais em L4-L5, a recidiva foi de 7%, com fatores de risco que devem ser avaliados antes da cirurgia.

8. Não reconhecer uma lesão dural

Em ambiente líquido, uma pequena abertura dural pode passar despercebida. Atenção a raízes flutuando, mudança no aspecto do campo e saída de líquido claro. A conduta depende do tamanho: lesões menores que 5 mm costumam ser observadas ou tratadas com hemostáticos absorvíveis; lesões maiores exigem reparo com patch ou conversão, e herniação de raiz pede ação imediata.

9. Operar sem rotina de setup

Posição do paciente, torre, arco em C e instrumental sempre no mesmo lugar reduzem distrações. Uma checklist antes de cada caso, incluindo material de conversão disponível, evita improvisos no momento de maior tensão.

10. Não rever os próprios vídeos

A endoscopia grava cada caso. Rever os vídeos, de preferência com um cirurgião mais experiente, mostra onde o tempo foi perdido e em que momento houve desorientação. É a forma mais barata de acelerar a curva depois do treino em cadáver.

Resumo: erro, consequência e prevenção

ErroConsequênciaPrevenção
Caso complexo cedoMais risco de lesão dural e conversãoSeleção em verde, amarelo e vermelho
Entrada mal planejadaTrajetória ruim, mais fluoroscopiaAP e perfil verdadeiros antes da incisão
Docking imprecisoAlvo fora do campoConfirmar nas duas incidências
DesorientaçãoRessecção no lugar erradoReferências fixas e fluoroscopia na dúvida
Irrigação mal controladaCampo turvo ou riscos por pressãoMenor pressão eficaz
Sangramento reativoPerda de visãoCoagulação preventiva
Fragmento residualFalha precoceExplorar axila, ombro e direção da migração
Lesão dural não vistaComplicação tardiaAtenção a sinais e conduta por tamanho

Conclusão

Os erros do início são previsíveis e, por isso, treináveis. Repetir planejamento, docking, orientação e hemostasia em peça anatômica, com instrutor ao lado, é o que o EndoColuna Cadaverlab propõe antes dos primeiros casos.

Perguntas frequentes

Qual o erro mais comum no início da endoscopia de coluna?

Indicar casos complexos cedo demais. Revisões e estenoses estão entre os principais preditores de lesão dural, junto com a própria curva de aprendizado.

Como evitar a desorientação durante a cirurgia?

Identificar referências fixas antes de ressecar, como faceta, pedículo, ligamento amarelo e anel fibroso, e confirmar com fluoroscopia sempre que houver dúvida.

Como evitar fragmento residual?

Confirmar a raiz livre e pulsátil, explorar axila e ombro da raiz e verificar a direção de migração prevista na ressonância antes de encerrar.

O que fazer em uma lesão dural pequena?

Lesões menores que 5 mm costumam ser observadas ou tratadas com hemostáticos absorvíveis. Lesões maiores exigem reparo ou conversão.

Referências

  1. Suvithayasiri S, Kim JE, Van Isseldyk F, et al. A Systematic Review of Complication Management During Uniportal and Biportal Endoscopic Spine Surgery: Dural Tear and Bleeding. Global Spine Journal, 2026 (in press) doi.org/10.1177/21925682261429971
  2. Trathitephun W, Asawasaksakul A, Jaruwanneechai K, et al. Intraoperative Management of Iatrogenic Durotomy in Endoscopic Spine Surgery: A Systematic Review. Neurospine, 2024;21(3):756-766 doi.org/10.14245/ns.2448346.173
  3. Kong M, Xu D, Gao C, et al. Risk Factors for Recurrent L4-5 Disc Herniation After Percutaneous Endoscopic Transforaminal Discectomy: A Retrospective Analysis of 654 Cases. Risk Management and Healthcare Policy, 2020;13:3051-3065 doi.org/10.2147/RMHP.S287976
  4. Koh CH, Booker J, Choi D, et al. Learning Curve of Endoscopic Lumbar Discectomy: A Systematic Review and Meta-Analysis of Individual Participant and Aggregated Data. Global Spine Journal, 2025;15(2):1435-1444 doi.org/10.1177/21925682241289901

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Dr. Thiago Soares

Sobre o autor

Dr. Thiago Soares

CRM-RS 28145 | RQE 20774 · Hospital Regina (Novo Hamburgo) e Instituto EndoRegenera

Ortopedista com atuação em cirurgia minimamente invasiva e endoscópica da coluna vertebral. Fundador e coordenador do EndoColuna.