Para reduzir complicações na discectomia endoscópica, atue em três momentos: antes da cirurgia, com seleção de casos e leitura cuidadosa da imagem; durante, com planejamento fluoroscópico, referências anatômicas, controle de irrigação e hemostasia preventiva; e diante da intercorrência, com reconhecimento precoce e conduta definida, como na lesão dural.

Quais são as complicações mais frequentes?

Revisão sistemática com 117 artigos e 20.020 pacientes, operados por técnicas uniportal e biportal, apontou lesão dural, déficit neurológico transitório e disestesia como as principais complicações perioperatórias da discectomia e da descompressão endoscópicas. Complicações tardias, como falha de implante, foram mais típicas das artrodeses endoscópicas.

ComplicaçãoO que a literatura mostra
Lesão duralDe 0,54% a 13,2%, conforme procedimento e casuística; maior em revisões e estenoses.
Déficit neurológico transitório e disestesiaEntre as principais complicações perioperatórias em revisão com 20.020 pacientes.
Recidiva da hérnia7% em série de 654 discectomias transforaminais em L4-L5.
Fragmento residualCausa reconhecida de falha precoce e reoperação.
SangramentoPrejudica a visualização; manejo centrado em prevenção.

Antes da cirurgia

Selecione o caso para a sua fase

Cirurgia de revisão foi o preditor mais forte de lesão dural em revisão com 10.578 pacientes, seguida de estenose lombar e curva de aprendizado. No início, prefira hérnias simples. O guia de seleção de casos organiza esses critérios.

Leia a imagem pensando no acesso

Zona da hérnia, migração, calcificação, crista ilíaca e tamanho da janela interlaminar definem a viabilidade e o acesso. Veja como interpretar a ressonância pensando em endoscopia.

Converse sobre recidiva

Degeneração discal, localização medial ou distal da hérnia e infiltração gordurosa da musculatura paravertebral estiveram entre os fatores associados à recidiva em L4-L5. Registrar esses achados e discuti-los com o paciente faz parte de uma indicação responsável.

Durante a cirurgia

Planejamento fluoroscópico rigoroso

Imagens em AP e perfil verdadeiros, marcação de pele e confirmação da trajetória antes de dilatar reduzem tentativas e manipulação perto da raiz.

Respeito à raiz e ao gânglio

No acesso transforaminal, a raiz que sai pelo forame fica próxima à trajetória. A irritação dessa raiz e do gânglio da raiz dorsal é uma causa frequentemente apontada para disestesia pós-operatória. Trajetória correta, foraminoplastia quando necessária e mínima manipulação ajudam a reduzir esse risco.

Hemostasia preventiva e irrigação controlada

A revisão de 2026 descreve uma estratégia de prevenção de sangramento: controle hemodinâmico, tamponamento hidrostático e uso direcionado de radiofrequência e hemostáticos tópicos. Na irrigação, use a menor pressão que garanta visibilidade.

Descompressão completa

Antes de encerrar, confirme a raiz livre e pulsátil, explore axila e ombro e procure fragmentos na direção da migração prevista. Esse passo reduz falha precoce por fragmento residual.

Diante de uma lesão dural

Revisão sistemática com 14 estudos e 68.546 pacientes propôs conduta guiada pelo tamanho da lesão:

TamanhoConduta descrita
Menor que 5 mmFrequentemente observada ou tratada com hemostáticos absorvíveis.
De 5 a 10 mmAbordagens mais complexas, como reparo endoscópico com patch.
Maior que 10 mmReparo com patch, sutura endoscópica ou conversão para cirurgia aberta.
Com herniação de raizAção imediata; frequentemente leva à conversão.
Trathitephun et al., Neurospine 2024. A evidência vem de estudos observacionais e relatos; não há ensaios randomizados.

A revisão de 2026 acrescenta que a técnica biportal facilitou reparos durais complexos e que defeitos grandes podem ser tratados com sutura endoscópica ou clipes não penetrantes. Ter o plano de conversão definido antes do caso evita decisões improvisadas.

Complicação reconhecida no ato e tratada com um plano é muito diferente de complicação descoberta no pós-operatório.

Treine as respostas antes de precisar delas

Controle de sangramento, reconhecimento de estruturas e resposta a intercorrências podem ser ensaiados em peça anatômica. O módulo de segurança do treinamento em cadáver do EndoColuna existe para isso. Para os deslizes mais típicos do começo, leia os erros mais comuns no início da prática endoscópica.

Conclusão

A discectomia endoscópica tem perfil de segurança favorável quando bem indicada, mas suas complicações típicas são previsíveis. Seleção de casos, técnica padronizada e um plano para a lesão dural reduzem tanto a frequência quanto o impacto dessas intercorrências.

Perguntas frequentes

Quais são as complicações mais comuns da discectomia endoscópica?

Lesão dural, déficit neurológico transitório e disestesia estão entre as principais complicações perioperatórias, segundo revisão com mais de 20 mil pacientes.

Qual a frequência de lesão dural na endoscopia de coluna?

Em revisão com 10.578 pacientes, variou de 0,54% a 13,2%, sendo maior em cirurgias de revisão e em estenoses.

Como tratar uma lesão dural durante a endoscopia?

Depende do tamanho: lesões menores que 5 mm costumam ser observadas ou tratadas com hemostáticos; maiores pedem reparo com patch, sutura endoscópica ou conversão.

Qual a taxa de recidiva após discectomia endoscópica?

Em série de 654 casos transforaminais em L4-L5, a recidiva foi de 7%.

Referências

  1. Compagnone D, Mandelli F, Ponzo M, et al. Complications in endoscopic spine surgery: a systematic review. European Spine Journal, 2024;33(2):401-408 doi.org/10.1007/s00586-023-07891-2
  2. Suvithayasiri S, Kim JE, Van Isseldyk F, et al. A Systematic Review of Complication Management During Uniportal and Biportal Endoscopic Spine Surgery: Dural Tear and Bleeding. Global Spine Journal, 2026 (in press) doi.org/10.1177/21925682261429971
  3. Trathitephun W, Asawasaksakul A, Jaruwanneechai K, et al. Intraoperative Management of Iatrogenic Durotomy in Endoscopic Spine Surgery: A Systematic Review. Neurospine, 2024;21(3):756-766 doi.org/10.14245/ns.2448346.173
  4. Kong M, Xu D, Gao C, et al. Risk Factors for Recurrent L4-5 Disc Herniation After Percutaneous Endoscopic Transforaminal Discectomy: A Retrospective Analysis of 654 Cases. Risk Management and Healthcare Policy, 2020;13:3051-3065 doi.org/10.2147/RMHP.S287976

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Dr. Thiago Soares

Sobre o autor

Dr. Thiago Soares

CRM-RS 28145 | RQE 20774 · Hospital Regina (Novo Hamburgo) e Instituto EndoRegenera

Ortopedista com atuação em cirurgia minimamente invasiva e endoscópica da coluna vertebral. Fundador e coordenador do EndoColuna.